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Por que os produtos orgânicos são mais caros?

Alguns preferem falar do valor dos produtos orgânicos, em vez de falar do preço. Mas, na prática, os consumidores se importam, e muito, com o preço, e temos de enfrentar essa questão.

Há vários motivos para o orgânico ser mais caro que o convencional. Um deles é a baixa escala de produção: quanto maior a quantidade produzida, menor o custo unitário. Isto é matemático. Para ter lucro, o produto – seja orgânico ou convencional – tem que apresentar margem de contribuição (receita líquida menos custos variáveis) que pague os custos variáveis, os custos fixos, as despesas (de administração, de vendas, financeiras e outras), e ainda garanta lucro para o agricultor.

Tenho trabalhado em propriedades rurais, levantando os custos de produção de agricultores orgânicos, e vejo que a grande maioria dos produtos apresenta boa margem de contribuição. Mas a quantidade vendida não tem sido suficiente para cobrir custos fixos e despesas, e ainda sobrar algum dinheiro para reinvestir na produção e viver dignamente.

Então, por que não se produz e se vende maior quantidade de orgânicos? Há também vários motivos.

A demanda, embora esteja crescendo, ainda é pequena. A baixa renda da maioria da população brasileira leva o consumidor a comparar preços, e aí se cria um círculo vicioso para o produto orgânico: preço desestimulante, poucas compras, pouca produção, preço unitário maior, e o círculo se fecha.

A grande maioria dos produtores orgânicos trabalha em pequenas áreas, tem conhecimento rudimentar de administração e finanças, pequena capacidade gerencial, não possui reserva financeira significativa e não gosta de se aventurar em crédito bancário. A conjunção desses fatores, e ainda uma certa propensão a não buscar mais riqueza material do que já tem (isto daria assunto para um livro de sociologia), leva o pequeno produtor a se satisfazer com a sua produção e o seu modo de vida. Talvez isso tenha uma certa dose de sabedoria.

O desconhecimento do consumidor do que é o produto orgânico e das suas qualidades é outro motivo limitante da venda.

Acredito que a combinação dos três fatores – preço alto, desconhecimento do consumidor e características do produtor – é o que limita a produção e as vendas.

Mas vejamos o outro lado da moeda.

Produto bom e de boa qualidade costuma ser mais caro. A população deveria ser amplamente informada de que o produtor orgânico cuida do solo, da água, da saúde dos consumidores e dos trabalhadores, da biodiversidade, do ambiente em geral, do planeta, enfim, e isso gera custos que o produto convencional não tem. Além disso, o orgânico tem custos de certificação. Mais tarde, a sociedade pagará a diferença, na forma de despoluição, tratamento de doenças, desassoreamento de rios e lagos, recuperação de solos erodidos, recomposição da fauna e da flora. Se acrescentarmos as contas sociais e ambientais, o produto orgânico talvez tenha o mesmo preço do convencional. Mas não há trabalhos, no Brasil e no exterior, que façam essas contas.

A produtividade depende de tecnologia, e esta depende da pesquisa. A produtividade dos orgânicos pode e deve aumentar, fazendo os preços diminuírem, se houver pesquisa e avanços na tecnologia, mas há pouca pesquisa sobre orgânicos nos órgãos públicos e nas universidades. A pesquisa é dirigida majoritariamente aos produtos convencionais.

Mas, em certos casos, a produtividade dos orgânicos deve continuar menor. A vaca criada convencionalmente tem alta produção de leite, pode chegar a 60 quilos em um dia, mas recebe uma parafernália de produtos químicos e de técnicas artificiais de criação. Muitas são confinadas pelo resto da vida e não veem o sol. Outro exemplo é o frango. O convencional recebe antibióticos para “limpar” os seus intestinos, e assim absorver rápida e totalmente toda a ração e ficar pronto em 40 dias. O frango orgânico leva meses para ficar pronto, mas toma sol e não toma antibióticos. Os orgânicos não torturam os animais, não fazem criações em gaiolas, querem animais naturalmente saudáveis.

Vegetais orgânicos, muitas vezes, também têm produtividade menor que a dos convencionais. Entretanto, sucessivas análises da Anvisa mostram contaminações acima do permitido ou com produtos proibidos, em alface, banana, pimentão e cenoura convencionais, e nem precisamos falar do morango.

Menor produtividade aumenta o custo unitário do produto. Mas não queremos produtividade a qualquer custo. Queremos saúde para as pessoas, plantas, animais e para o planeta.

Queremos também consumidores ativos e participantes. Precisamos de uma associação de consumidores orgânicos, que não existe no Brasil, que ajude a fiscalizar e a deslanchar o mercado.

Por fim, não podemos nos conformar e nos acostumar com grandes diferenças de preço, que muitas vezes encobrem ineficiências na produção e na comercialização dos orgânicos.

Sobre o autor:

J. P. Santiago
Engenheiro Agrônomo, consultor técnico e financeiro em Agricultura Orgânica.
jp.santiago@terra.com.br

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