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É possível abastecer o mundo apenas com produtos orgânicos?

Ming Liu, do Organis, aborda a atual conjuntura do segmento no Brasil, aponta contradições, desafios e tendências

Você acredita que o mundo pode ser abastecido 100% com produtos orgânicos?

Essa é uma pergunta que sempre me fazem, alguns para provocar, outros para ter a oportunidade de expressar seus sonhos e depositar suas esperanças em algo mais forte e, independente da resposta, ouço críticas dos dois lados. Sou mais pragmático quanto a nossa realidade, mas não deixo de sonhar e procuro levantar a minha voz interna de julgamento quando, por exemplo, temos de definir o certo do errado, o bem do mal ou o bonito do feio.

Não somos e nem tem como sermos um dia 100% orgânico (ou o que quisermos ser em nossas vidas), sem que possamos fazer uma imersão espiritual dentro do problema, analisar todas as situações e emergir para “prototipar” um novo modelo.  Então o que fazemos e qual a nossa missão nesta jornada?  Somos ideologistas? oportunistas? Sonhadores?

Já somos vendidos desde o nascimento às piores práticas do consumismo desenfreado e do capitalismo selvagem das grandes economias de mercado? Vocês poderão saber de minha resposta até o final deste artigo, mas, antes, o convido para uma imersão do que acredito que a razão humana muitas vezes deixa de ver o que está em nossa frente. Uma miopia de mercado digna de temas já abordados para os grandes gurus do marketing.

Não temos nenhuma dúvida que atualmente qualquer economia de mercado é definida pelos consumidores. Consumidores. Numa economia globalizada e aberta, foi-se o tempo onde éramos impostos a produtos limitados a poucas marcas, que conhecíamos pelo nome do proprietário do mercadinho, e contávamos nos dedos os grandes e médio varejo onde encontrávamos produtos que queríamos conhecer ou experimentar.

Foi-se o tempo em que tínhamos de garimpar locais dos importados, uma seção separada e para poucos, ou vivíamos na esperança daquele tio ou parente que viajava e nos trazia o chiclete de sabor “americano”, ou um chocolate sabor “suíço”. Na economia de mercado atual continuamos buscando um lugar ao sol tendo, desde o microempreendedor até as gigantes transnacionais, em todos os setores, no campo, na indústria e varejo.

Mas o que tem isso a ver com os orgânicos? Viemos de um marco regulatório no Brasil recente através da Lei 10.831 de 2003 e regulamentado em 2011.  Desde então continuamos nos ajustando a esta regulação com o aprimoramento da Lei para novos produtos e processos.  Um exemplo é o mercado de cosméticos orgânicos que, apesar de não ser regulamentado em nenhum país até o momento, o mercado definiu os parâmetros de credibilidade a partir de critérios únicos de certificação privada.

No mercado de alimentos orgânicos já é diferente, pois segundo a IFOAM (International Federation of Organic Agriculture Movement) há mais de 150 países regulamentados. Em 2003 eram 44 países com regulação própria. Em 2016 somaram-se mais 87 países, e atualmente ainda há uma dúzia de países em processo, inclusive a Rússia que também quer entrar neste mercado. Assim o mundo de produção orgânica já reúne 151 países nos cinco continentes regulamentados, mais de uma dúzia de países em processo de regulação e várias dezenas de países produzindo ainda de modo “informal” e que um dia se regulamentará, sendo que estamos em um ecossistema terrestre de mais de uma centena de línguas e culturas diferentes que compartilham dos mesmos valores, cada qual imaginando seu mundo.  Tudo isso representa pouco menos de 5% da produção mundial no agronegócio.

Caminhando para o setor produtivo da cadeia orgânica, com maior agregação do valor aos produtos, entramos em um segmento que chamarei “da porteira do campo para fora” e corresponde ao ponto em que os conceitos e valores do segmento começam a se tornar contraditórios, na medida em que entra na esfera de uma economia de mercado. Sai do pequeno mundo para acesso aos grandes mercados. Capitalismo selvagem, dominância corporativa, abuso econômico foram alguns dos comentários polêmicos que ouvi e li em diversos grupos de discussões e blogs recentemente, após a recente notícia da venda da Mãe Terra para a multinacional Unilever: os valores pessoais se renderam à dominância financeira, a aparência sobrepôs à essência, e por último a ganância foi maior que a sabedoria.

Não queremos que o mundo seja 100% orgânico? Não tem que se começar de alguma forma, deixando nossa voz de julgamento de lado e acolher quem tenha interesse, ou vamos imaginar que numa geração espontânea da vida, comece a nascer habitantes da Terra já orgânicos por natureza? Temos de submergir e ver que a realidade é que a cadeia produtiva no Brasil e em qualquer outro país, que já tem um mercado mais amadurecido, começou muito pequena e não organizada, e não tinha porte nem estrutura para um processo de verticalização das operações. Mas nem por isso se venderá por qualquer valor.

Nesta equação, o consumidor continuará a ser o fiel da balança.  No Brasil, temos ainda uma cadeia primária muito pulverizada e carente de investimentos para produção e capacitação para atender à crescente demanda.

O Organis realizou uma pesquisa nacional e foi apontado que em média apenas 15% da população brasileira consomem produtos orgânicos. Como temos de nos organizar e estruturar se quiséssemos, por exemplo, dobrar este número?  Como criticar se nem os 15% identificados conseguimos nos organizar? O setor de processamento e indústria ainda carece de regularidade e volume de produtos para entrar em uma economia de escala e, se fosse analisar, teríamos talvez de duas a três empresas em condições financeiras e operacionais de crescer sozinhas se verticalizando, mas não há um caso conhecido neste processo.

Temos que ser realistas e ver que mesmo nos mercados mais maduros, como Europa e Estados Unidos, o crescimento se deu na forma de uma integração horizontal e não deverá ser diferente no Brasil. Na verdade, o caminho que o mundo orgânico se direciona é para a integração do mercado através da horizontalização do mercado, com grandes empresas e transnacionais adquirindo empresas que se estabeleceram no setor, através de aquisição de sua marca e operação, e em grande parte através de alianças estratégicas preservando sua ideologia e valores.

Esse processo se dá na medida em que as grandes empresas vêm percebendo a demanda crescente do mercado, consumidores, para produtos saudáveis, orgânicos e com rastreabilidade, e não têm o conhecimento nem o relacionamento necessário dentro do setor para formar suas cadeias produtivas em escala e nem para iniciar de forma independente. Talvez, uma razão até maior do que não ter conhecimento e relacionamento no mercado, apontaria que não possuem a credibilidade e a percepção dos consumidores de que suas empresas venham a ter a integridade, retidão e transparência em seus processos e práticas e que se transformem nos produtos finais que procuram.  Essa falta de relacionamento mais íntimo com o consumidor vem dirigindo este processo de horizontalização do mercado e que começamos a perceber no Brasil. No mundo global, as aquisições têm sido feitas dessa forma, e preservando os valores da empresa: a marca, os produtos, das estratégias e até manter seus empreendedores fundadores no negócio.  Não adianta apenas querer comprar uma marca e colocar em sua prateleira de negócios.

No mundo Orgânico S.A., manter a sua alma viva é o segredo do negócio. Pagará caro quem imaginar que será apenas mais um negócio.

Indo para uma realidade final, um protótipo que começa a surgir no Brasil, a imersão dos orgânicos para a economia de mercado representará diretamente em maior investimento e capacitação de mão de obra, inovação em processos e maiores investimentos, por parte dos setores públicos e privados em programas de incentivo ao mercado do bem.

Teremos a oportunidade de sonhar mais alto que um dia, talvez, possamos ter um mundo 100% orgânico. Não deixaremos de esquecer nossas origens e nem perder nossos valores, mas podemos sim nos profissionalizar no mercado global e continuarmos a ser um país orgânico pelo nome e orgânico pela natureza.

Sobre o autor:

Ming Liu

Ming Liu é diretor do Conselho Brasileiro da Produção Orgânica e Sustentável (ORGANIS)