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“Descobri que os produtores não comiam o que plantavam”

Marcos Palmeira conta ao UOL como abraçou a causa de uma agricultura 100% livre de venenos

O ambiente rural é bastante conhecido pelo ator Marcos Palmeira, 53, que passou a infância nas fazendas de sua família na Bahia.

Em 1997, o ator comprou uma propriedade em Teresópolis (RJ), batizada de Vale das Palmeiras, e se transformou em um produtor de hortaliças e laticínios orgânicos – alimentos que não recebem nenhum tipo de agrotóxico na produção. Adepto e defensor da causa, ele contou ao UOL que sua alimentação é quase totalmente orgânica e que o consumidor precisa brigar por mais orgânicos nos mercados. 

Quando e por que você decidiu investir nesse segmento?

Quando eu comprei a fazenda, ela já produzia alimentos, mas eu achava que tudo era natural, então descobri que os produtores não comiam o que plantavam. Percebi que havia uma incoerência. Foi aí que eu me toquei que o adubo para fortificar o solo e o remédio para os bichos eram veneno para a gente. E resolvi fazer diferente.

Em sua opinião, quais as vantagens de se consumir alimentos orgânicos?

Quando você consome um produto orgânico, toda uma cadeia produtiva está sendo beneficiada, desde a preservação das águas, do solo, a recuperação de florestas. Tudo isso está dentro do produto orgânico, que é mais ético. As pessoas pensam que o alimento convencional é mais barato, mas não embutem no preço os remédios que precisarão tomar, os malefícios que o produtor têm ao plantar, a contaminação do meio ambiente.

Você consome apenas orgânicos?

Eu consumo basicamente 90% de produtos orgânicos em casa, se não 100%. Sempre me alimentei de forma natural, mas descobri que nem tudo o que é natural é saudável. Foi aí que comecei a consumir só produtos orgânicos.

Você notou alguma mudança em sua saúde em virtude disso?

A diferença é clara em termos de energia. Eu pratico esporte, me alimento bem, tenho uma vida saudável. Mas, com certeza, a alimentação me ajuda bastante.

Você percebe um aumento na procura pelos alimentos orgânicos?

O crescimento é constante. Dizem que é de 30% ao ano. É um aumento absurdo do consumo, não só no Brasil, mas em todo o mundo. Porém, ainda é ínfimo se comparado ao potencial do agronegócio.

Uma das principais críticas feitas aos orgânicos é o preço, em geral mais caro. Por que isso acontece?

O produtor orgânico não tem marketing nenhum. Já o convencional tem os atravessadores, grandes empresas e marcas. É preciso saber de onde vem o nosso alimento. Existe muita oferta de produtos orgânicos, mas os produtores ainda perdem o que não conseguem vender. O consumidor tem que cobrar que mais mercados vendam orgânicos.

Quais alimentos você produz na fazenda?

Eu produzo hortaliças, tomate, folhosas, legumes e algumas frutas. Mas meu carro chefe é o laticínio. Crio gado orgânico tratado com homeopatia que produz leite puro, de altíssima qualidade, e queijos (frescal, padrão e ricota), além de iogurte. Agora, vou incluir burrata, manteiga, cottage e requeijão cremoso light. Em breve, teremos uma linha sem lactose.

Quais são as técnicas usadas em sua fazenda para substituir agrotóxicos?

Nós trabalhamos com rotação de culturas, adubação verde, que é plantar algumas leguminosas para recuperar o solo, e adubação com compostagem. Fazemos o controle de pragas sem usar veneno. Um solo fértil vai ser menos propenso a doenças. Temos um cuidado com o pasto dos animais e no curral tem muita teia de aranha para ajudar no controle das moscas.

Você acha possível que a produção agrícola no país seja totalmente orgânica algum dia?

Eu acredito na agricultura orgânica. O discurso do agronegócio “se não for transgênico, não produz para todo mundo” não condiz com a realidade. Quem bota comida na nossa mesa é a agricultura familiar. A grande dificuldade é que não termos marketing ou uma bancada ecológica tão forte. Acho que é isso que falta. E é uma questão cultural também. É lamentável o Brasil ter o uso em larga escala de agrotóxico, mas acho que é um reflexo da industrialização de tudo. Eu sou a favor da prevenção que a agroecologia preconiza. Tem muita gente boa tentando fazer coisas diferentes e é dessa turma que vou me aproximando.